Artista, não me confunda!

13/mai/2007 Comentar

“A arte é a coisa mais concreta do mundo, e não há justificativa para confundir a mente de qualquer pessoa que queira conhecê-la mais profundamente.” Rudolf Arnhein assim introduz a última edição publicada de seu famoso livro Arte e Percepção visual: uma psicologia da visão criadora. Estaria ele provocando os que ousam transformar a arte em uma atividade confusa e despropositada? Estaria ele a incitar o debate sobre o significado do modelo artístico dos dias atuais? Seria uma resposta aos defensores de uma arte conceitual pura, sem reflexões no mundo real?

Penso que seu objetivo não era um nem outro, mas apenas este: de tratar de nos fazer pensar sobre o caminho que a arte tem tomado nos dias atuais. Ele morreu em 1997 e pode testemunhar e profetizar para onde caminhava toda aquela avalance de mudanças comportamentais dos artistas. Ele nasceu no início do Século e presenciou as transformações mais significativas do mundo da arte: do moderno ao contemporâneo. Ele era alemão e morava nos Estados Unidos.

Eu estou no Ceará, no Brasil e a realidade é outra. Temos uma realidade cultural totalmente diferente da que acolheu Rudolf e os artistas que ele conheceu. Mas meus colegas artistas tem produzido obras de apelo universal e que se colocam no mais alto nível da arte. Como explicar a ressonância do significado destas obras contemporâneas, sem considerar as variáveis do nosso tempo como tecnologia, abolição de fronteiras, acesso à informação em grande volume e tempo recorde? Não dá.

Voltando ao ponto de partida deste artigo, embora devamos estar atentos para as direções que a arte contemporânea tem apontado, não podemos ignorar o público e seu apelo por significado. Uma obra de arte, mesmo sendo de natureza conceitual, deve ter um diálogo com o observador sob pena de não ter valor por não ser apreciada. Nossos sentidos precisam de uma busca, de uma razão para olhar, analisar, perceber e admirar.

Eu vou ao Museu para ter prazer estético e sensorial. Para esquecer dos problemas e mergulhar em um mundo diferente, que deve ser essencialmente interessante e quero encontrar lá trabalhos que satisfaçam estas minhas necessidades plenamente. Se os artistas ignoram estes preceitos, não teem competência para estar num museu e nem para chamar de arte o que produzem. Então artistas, não me confundam. Descompliquem. Não tentem fazer da arte uma coisa sem sentido e sem valor.

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