Abrindo brechas na caixa preta

21/mar/2009 Comentar

Longe de ser um texto refinado e hermético, o que você vai ler a seguir, busca ser um texto-sentido. Expressão que utilizo desde os tempos de faculdade, sugerida por professores que nos estimulavam a expressar livremente nossas impressões sobre tudo a toda hora. Sem censura, sem regras, sem normas taxativas para escrever, vale o que se diz sobre o que foi ouvido, lido, visto, sentido. É um “pensamento conceitual barato” em toda sua extensão. Então, vamos sentir?


Eu estava tão acostumada com as definições ensinadas sobre o que é comunicação, como sendo um sistema formado por emissor, receptor, meio e mensagem que qualquer outra tentativa a mim parecia de imediato desafiadora, quase atrevida.

Ao afirmar que a comunicação tem um caráter artificial, por necessitar de artifícios, Vilém Flusser redefine o conceito chavão e tira não só a mim mas a todos que o conheçam pela primeira vez, da posição cômoda em que estávamos. Ele vai mais além, provocando uma desordem total em nossas frases prontas, quando dispara mais uma afirmação poderosa: “a comunicação ocupa-se do sentido artificial do deixar-se esquecer da solidão” e ainda que sua razão de ser é uma busca eterna por sentido, para driblar a morte.

Soa catastrófico, e foi com estranhamento que a recebi. Mas ao mastigá-la, ruminá-la e regurgitá-la como agora, esta definição soa muito verdadeira. Dá até pra perguntar por que ninguém pensou nisto antes. E se pensou, talvez até o tenha feito, por que não disse, por que não escreveu.

No meu ponto de vista, a resposta é simples: por conta do pragmatismo, da desconfiança com relação ao novo que está enraizado em nossa cultura intelectual. É mais fácil aceitar algo dito como verdade do que buscar questionar e elaborar um novo pensamento. Assim sendo, segundo o autor de O Mundo Codificado, estamos matando a comunicação ao invés de praticá-la efetivamente, porque, para ele, as informações produzidas e armazenadas devem prescindir uma troca dialógica muito mais do que discursiva.

A meu ver, este é o grande desafio. Não basta apenas produzir nova idéias, é preciso estar pronto para discutí-las e reelaborá-las a partir de um processo de diálogo. Agora vem a parte mais difícil: será que estamos prontos para isto? Dispostos a ceder e reformular a proposta que fizemos em favor de uma nova ideia, respeitando a livre opinião do outro participante? A resposta eu não tenho, mas me incomoda. E se me incomoda, me faz pensar de maneira reflexiva até que vire um discurso. O passo seguinte, o diálogo é que vai me ajudar a formular um ponto de partida para a expressão e comunicação deste pensamento. Receber, aceitar, recusar, remodelar, como escreve Dominique Wolton.

Finalmente, chegamos ao item que me interessou mais nestes encontros com Marcos Vasconcelos. Dentro deste contexto, cabe uma reflexão acerca das mídias do nosso tempo. Que tipo de comunicação está sendo produzida e como eu me posiciono para recebê-la, interpretá-la, aceitá-la, negá-la ou remodelá-la? Será que tenho consciência de que isto ocorre? Em um mundo tão vasto, cuja informação é tão globalizada, como se dá esta tentativa da busca do sentido? Concordo com Wolton, quando diz que “em vez de aproximar os pontos de vista, a informação mundial aumenta as distâncias e exacerba os mal entendidos”, pois vivemos num tempo em que os acontecimentos históricos são cada vez mais evidentes e os agentes desse fenômeno questionam a hegemonia das grandes potências mundiais.

Ainda bem. Já houve um tempo em que tudo era uma convenção inquestionável e amplamente aceita tamanho é o poder das chamadas imagens técnicas (Flusser). Esta é a magia de segunda ordem, que sucede a pré-história e que, portanto não pode ser comparada com a imagem tradicional, que é pré-histórica; é uma magia codificada, gerada por aparelhos através de programas criados para controlar o comportamento da sociedade, dentro de determinados parâmetros, convenientes aos detentores da caixa preta (Flusser). Os donos do poder econômico, que compram tudo e todos, banalizando a moral e a cultura, travestindo de atitude o ato de comprar e de ideologia a necessidade de consumo. É em dias como estes, que vemos o mundo questionar a potência máxima geradora destas ilusões tidas como verdades. Mas ainda não é um movimento generalizado, está restrito a poucas cabeças pensantes da atualidade.

Porém é com grande alegria que vejo estas idéias novas e ousadas sendo repassadas a estudantes e profissionais, em sala de aula e no batente das empresas. Isto me dá esperança de que uma nova ordem um dia possa surgir e se contrapor de maneira eficiente contra a atual concepção de mundo, incutida pela força das imagens técnicas. É um movimento que bate direto no interior da caixa preta, para forçar sua abertura e transgredir seu fechamento. Abrir brechas no objeto lacrado para poder espiar e buscar entender como se dá seu processo, sua codificação.

Assim espero. E olhe que sou uma pessimista de carteirinha. Tendo a achar que tudo vai dar errado, muito errado. Pode parecer desagradável e até dramático, mas quando dá certo, tenho sempre uma agradável surpresa.

Originalmente produzido em 11 de Fevereiro de 2009, para a disciplina de Design e Comunicação Social, orientada por Marcos Vasconcelos.

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