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Memorial   Parte I

Adoro café. De todas as lembranças que tenho de minha infância, nenhuma é tão forte quanto a de minha mãe preparando o café. Sinto o cheiro da água fervente cozinhando o pó que ela mesma torrara, vejo o vapor subindo da vasilha até se perder antes de chegar no telhado. E das mãos dela, ágeis que mexiam no saco de coar com a colher, esperando escorrer o líquido preto até a última gota, que fazia sair depois de torcer e espremer. E dela, com um sorriso doce e cheio de ternura, enchendo a caneca de plástico azul-merenda-escolar, pra me dar de beber. Ah! O café da minha mãe!

Meus filhos não gostam de café. Nunca dei pra eles. O pai me convenceu de que faria mal. Leite era melhor. Eu, que nunca bebi leite a não ser o dos peitos de minha genitora, achei que ele pudesse ter razão. Não sei se eles um dia terão uma lembrança forte de mim como tenho da minha mãe. Não sei.

Tenho o hábito de andar com papel e livros na bolsa. Ela me botava pra sentar em cima da grande mesa de madeira pra encher o caderno com cruzinhas. Morávamos no interior de Canindé. Num lugar que devia ter uns 100 habitantes espalhados pelas margens do Rio Curu. Vazante, assim era chamado e ficava a 4 horas de viagem do centro de Canindé. E ensinava o be-a-bá para os filhos dos vizinhos. Sempre me lembro dela reclamando que não pudera estudar. Seu pai não permitira. Tinha que ajudar na colheita de algodão.